Conhece os benefícios do contacto pele com pele, as recomendações da OMS e porque esta primeira hora pode ser tão importante.
Os primeiros minutos depois do nascimento são uma das maiores transições fisiológicas que um ser humano atravessa.
Dentro do útero, o bebé esteve num ambiente quente, protegido e regulado. Recebia oxigénio através da placenta, mantinha uma temperatura estável e estava continuamente em contacto com o corpo materno.
Quando nasce, tudo muda num ápice.
De repente, precisa de respirar através dos pulmões, adaptar a circulação sanguínea, manter a temperatura corporal e lidar com um mundo de luz, sons, cheiros, toque e movimento.
Para nós, adultos, uma mudança pode ser antecipada, compreendida e contextualizada.
Para um recém-nascido, não.
Ele não tem os recursos para interpretar o que está a acontecer, antecipar o que vem a seguir ou regular sozinho toda a intensidade desta experiência.
E é aqui que talvez seja importante mudar a forma como pensamos os primeiros momentos depois do nascimento.
Porque o bebé sai do corpo da mãe, mas não deixa de precisar de um corpo para o ajudar a regular-se.
O nascimento não transforma subitamente um bebé dependente num ser autónomo.
Muda o contexto em que essa dependência acontece.
Enquanto nós, adultos, temos recursos para interpretar, antecipar, compreender e regular a experiência de uma mudança, um recém-nascido não os tem.
Investigadores que estudam o desenvolvimento precoce e os efeitos do contacto pele com pele, como Ruth Feldman e Nils Bergman, têm contribuído para uma ideia particularmente importante: para o recém-nascido, a mãe não é apenas alguém emocionalmente disponível. O corpo materno constitui um contexto biológico fundamental para a sua adaptação à vida fora do útero.
O corpo materno fornece estímulos sensoriais e fisiológicos importantes para a regulação do recém-nascido.
Por isso, quando afastamos um recém-nascido da mãe na primeira hora de vida — ainda que por breves minutos, para pesar, medir ou realizar procedimentos que podem, muitas vezes, aguardar — talvez valha a pena perguntarmo-nos:
Ao que estamos a dar prioridade?
À fisiologia daquele bebé, que acabou de atravessar uma das maiores transformações da sua existência?
Ou à agenda de um profissional e de um sistema que, por vezes, tem dificuldade em adaptar-se à evidência?
Não se trata de dizer que todos os procedimentos são desnecessários ou que nunca devem ser realizados.
Trata-se de perguntar se têm realmente de acontecer naquele momento e se precisam de acontecer afastando o bebé da mãe, quando é a própria presença materna que contribui para a sua regulação.
A Organização Mundial da Saúde recomenda o contacto pele com pele imediato e ininterrupto após o nascimento, quando mãe e bebé se encontram clinicamente estáveis, integrada nos cuidados essenciais ao recém-nascido
No âmbito das suas recomendações de Early Essential Newborn Care, a OMS recomenda que este contacto seja mantido durante pelo menos 90 minutos, promovendo também o início precoce da amamentação.
Não se trata, portanto, de apresentar a chamada golden hour como um ritual opcional ou como uma preferência de determinados profissionais e também não é simplesmente um ritual “ emocionalmente bonito”
O contacto pele com pele está associado a benefícios como:
- Melhor manutenção da temperatura corporal;
- Maior estabilidade cardiorrespiratória;
- Diminuição no choro ;
- Melhor adaptação fisiológica à vida extrauterina;
- Maior probabilidade de início precoce da amamentação;
- Maior probabilidade de resultados favoráveis relacionados com a amamentação nas semanas seguintes;
- O contacto precoce com os microrganismos da pele materna, contribui para a colonização do recém-nascido.
Talvez exista aqui um paradoxo que mereça a nossa atenção.
Parecemos ser nós, adultos e supostamente maduros, com capacidade para compreender, antecipar e regular as nossas respostas, que temos a dificuldade em acompanhar e adaptar-nos à mudança — mesmo quando essa mudança é recomendada pela melhor evidência disponível.
E, ao mesmo tempo, esperamos que um recém-nascido, que não tem alternativa, se adapte imediatamente a uma sucessão de mudanças para as quais o seu sistema nervoso ainda está em desenvolvimento.
E então surge uma pergunta que me parece impossível ignorar:
Será que a nossa relação com a mudança começa também a ser construída a partir da forma como somos recebidos quando tudo é, pela primeira vez, diferente e novo?
Não sabemos se podemos estabelecer uma relação direta entre a experiência sensorial do nascimento e a forma como cada pessoa irá, mais tarde, responder à mudança.
Seria uma extrapolação afirmar que a forma como nascemos determina a nossa relação futura com o desconhecido.
Mas sabemos que as experiências precoces participam na organização do cérebro e dos sistemas de stress e regulação, num período de extraordinária plasticidade.
E talvez esta distinção seja importante: não precisamos de afirmar que sabemos exatamente quais serão as consequências futuras de uma experiência para reconhecer que o modo como recebemos um recém-nascido importa.
Talvez isto seja suficiente para nos levar a olhar para o nascimento com outra consciência — e com coragem para exigir coerência entre aquilo que a evidência nos mostra e aquilo que fazemos na prática.
Porque aquilo que, para nós, pode parecer simplesmente “despachar serviço” pode ser, para um recém-nascido, uma experiência de intensidade extrema.
Talvez possamos fazer com que o “novo” não seja sinónimo de ameaça.
Que o “desconhecido” possa ser desafiante sem ser assustador.
Que a “mudança” possa acontecer sem que o corpo tenha de a viver como uma agressão.
Uma transição suave não é sobre ser perfeito, nem evitar mudanças
É sobre estar presente enquanto elas acontecem
É sobre oferecer, no momento em que tudo muda, um lugar seguro a partir do qual aquele bebé possa começar a descobrir o mundo.
Estás a preparar o nascimento do teu bebé?
Não precisas de saber tudo.
Mas podes chegar ao parto conhecendo as tuas opções, sabendo quais são as perguntas que queres fazer e ter as ideias mais claras sobre aquilo que é importante para ti e para o teu bebé.
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Este artigo tem carácter informativo e não substitui aconselhamento médico individualizado. As decisões relativas aos cuidados durante e após o nascimento devem considerar sempre a situação clínica da mãe e do bebé.



