A ilusão de controlo no nascimento — o meu olhar de doula sobre o parto fisiológico
Não há nada que me coloque tão profundamente em contacto com aquilo que considero a essência da vida como assistir, apoiar enquanto doula e fotografar ou filmar um nascimento.
Mesmo passados dez anos, continuo a comover-me com o momento em que o recém-nascido é entregue à mãe – um encontro que desfaz todas e quaisquer ilusões que tenha diante da evidência mais simples e mais profunda: a vida não nos pertence.
A questão começa por deixarmo-nos de ilusões porque nenhum ser humano cria vida.
A mulher doa um óvulo que recebe um espermatozóide – duas células que já contêm o potencial para desenvolvimento de um ser humano. E é tudo!
Nem a mulher que engravida , nem o pai, nem o obstetra ou qualquer outra entidade humana decide seja o que for no que diz respeito ao desenvolvimento de todas as estruturas, orgãos e sistemas que compõem um ser humano. A vida acontece — silenciosamente, com uma precisão e inteligência que ultrapassam qualquer compreensão humana.
Perto das 39 semanas de gestação, o conto do vigário
Fico francamente surpreendida que continuemos a cair no conto do vigário de que o nascimento , esse evento que encerra um processo de gravidez e que todos sabemos ser um processo natural e espontâneo resultado de uma concepção, tenha que ser controlado por umas entidades que se apresentam de bata branca (ou verde clara) e que normalmente demonstram pouca vontade de abrir diálogo connosco.
Salvo raras excepções, os obstetras não respeitam a informação baseada em evidência cientifica e para além de insistirem em não seguir as directrizes da Organização Mundial da Saúde , ainda se sentem no direito de decidir que aquilo que a natureza cria, deve terminar quando assim o entendem.
Têm, portanto, livre arbítrio para comandar o milagre da vida…
Não criam vida, não a carregam no ventre, mas decidem quando é tempo de nascer e como.
Enquanto doula, tenho acompanhado de perto partos hospitalares e observo que permanece, no sistema hospitalar português, a ideia de que às 39 ou 40 semanas é suposto os bebés nascerem. A partir das 38/39 semanas a parturiente começa a ouvir falar em indução do trabalho de parto por volta das 40 semanas, como se houvesse algo de errado com os bebés que ainda não nasceram, quando sabemos que a gravidez é um processo naturalmente variável e que pode durar entre as 37 e as 42 semanas.
Apesar de a evidência científica apontar para um risco ligeiramente aumentado de algumas complicações após as 41 semanas de gestação — risco esse que pode ser acompanhado através de monitorização adequada em gravidezes saudáveis —, os obstetras preferem não só ignorar a evidência, como generalizar o medo e pressionar a mulher para induzir o trabalho de parto, usando a palavra risco de forma vaga, ainda que, até à data, tudo esteja bem com o feto e com a mãe.
O resultado é a criação de stress desnecessário e profundamente contraproducente para a mulher grávida.
It takes two to tango
A História está repleta de exemplos de seres humanos, instituições e estruturas sedentas de poder e de controlo sobre os outros. O que continua a surpreender-me é que, numa era de acesso livre e facilitado à informação — e com tantas doulas a apoiarem mulheres e casais com base em evidência científica — continuemos, colectivamente, a compactuar com interesses que não colocam os direitos das mulheres e dos bebés no centro.
A manutenção deste sistema não acontece apenas por imposição de uma classe médica, mas também pela nossa facilidade em delegar decisões e abdicar de responsabilidade. É uma dança a dois: enquanto aceitarmos sem questionar, enquanto normalizarmos a cedência de direitos em nome de uma falsa sensação de segurança, estaremos a colocar-nos em segundo plano. Assumir que somos apenas vítimas do sistema pode ser confortável, mas é também uma forma subtil de desresponsabilização. A mudança exige consciência, escolha e responsabilidade de ambas as partes.
A verdade é que o nascimento, na sua essência, sempre foi — e sempre será — um processo fisiológico
A abordagem ao nascimento pode ter mudado ao longo da história da humanidade mas o nascimento em si sempre foi — e sempre será — um processo fisiológico
Talvez não seja ainda suficientemente claro o que significa a palavra fisiológico, mas refere-se ao funcionamento orgânico normal e saudável.
Quando quisermos enquanto cidadãos olhar para esta evidência com sentido de responsabilidade e seriedade, talvez possamos entender o impacto que algumas escolhas têm na saúde não só de quem dá à luz e de quem nasce, mas também na economia e na política de uma dada sociedade.
Até lá viveremos na ilusão do controlo e da segurança.
Preparar o parto não é acumular informação nem decorar conceitos
A preparação para o parto necessita de investimento em práticas de conexão com o corpo e com os ciclos e ritmos da natureza para que um evento de tal intensidade possa ser vivido de dentro para fora e de um lugar de real confiança e consciência. Enquanto continuarmos a depositar a confiança de algo que faz parte do ciclo de vida, na tecnologia e na prática de uma assistência não baseada em evidência estaremos apenas a multiplicar a desconexão, o trauma e o controlo sobre o corpo da mulher

Por isso não prescindo de manter no acompanhamento durante a gravidez práticas corporais conscientes — como o yoga, a respiração consciente e controlada, o movimento e a massagem.
Podem parecer um lugar comum, mas são essenciais durante a gravidez porque regulam o sistema nervoso e preparam o corpo e a mente para os desafios do trabalho de parto.
São práticas que, quando integradas numa rotina diária, permitem que o sistema nervoso encontre repouso e que a mulher assim construa, dia após dia, uma relação de confiança com o seu corpo. É dessa confiança, enraizada e vivida, que nasce a capacidade de atravessar o trabalho de parto de dentro para fora, com entrega, consciência e empoderamento
E por que o sistema nervoso é tão importante durante o parto?
Porque o sistema nervoso é o grande mediador entre o corpo e a mente. É ele que percebe o ambiente, interpreta o que é seguro ou ameaçador e ajusta o corpo em função disso.
O parto é, por natureza, um processo fisiológico de natureza intensa que facilmente coloca o sistema nervoso em modo alerta, o que pode bloquear as hormonas que o regem e que só fluem em ambientes de confiança, privacidade e calma.
Ter acesso à informação clara e baseada em evidência durante a gravidez que comprova que o corpo sabe mais do que a mente compreende, não é suficiente para se enfrentar as pressões de um sistema de assistência à gravidez e parto desactualizado e interventido, nem tampouco aos desafios a que o corpo e a mente serão expostos durante o trabalho de parto.
Daí ser primordial durante a gravidez investir em técnicas e práticas de relaxamento, de entrega, de presença no corpo, construindo uma sensação de confiança em si e nesse saber que é intrínseco do corpo em reagir de forma adequada aos desafios de dar à luz.
O corpo precisa de praticar técnicas que activem o sistema nervoso parasimpático para poder ter tempo de integrar mecanismos de regulação durante o trabalho de parto.
Fica o convite de abdicar da ilusão de controlo recuperando a responsabilidade.
Responsabilidade pelas escolhas que fazemos, pela informação que procuramos (ou evitamos), pelos sistemas que legitimamos e pelos corpos que habitamos.
Enquanto doula, tenho acompanhado de perto como a confiança no corpo se constrói dia após dia.
Confiar no corpo não é um acto ingénuo nem romântico — é um acto político, consciente e profundamente informado.
É reconhecer que a vida tem uma inteligência própria e que o nosso papel não é dominá-la, mas criar as condições para que ela se manifeste com o mínimo de interferência e o máximo de respeito.



